Nos dias de hoje é muito comum ouvirmos falar em depressão*. Infelizmente, a maioria de nós conhece um familiar, amigo ou conhecido que sofre com esta perturbação. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2015, o total de pessoas com depressão foi estimado em mais de 300 milhões, sendo classificada pela OMS como o maior contribuinte da incapacidade para a atividade produtiva e a que mais contribui para as mortes por suicídio.

Da mesma forma, é cada vez mais recorrente chegarem até nós pessoas com diagnósticos de depressão (ligeira ou grave), independentemente da idade, sexo ou condição financeira.

E o exercício físico ajuda ou não, em casos de perturbações depressivas?

A actividade física produz importantes benefícios psicológicos que têm impacto relevante na qualidade de vida das pessoas. É também utilizada como adjunto no tratamento das perturbações mentais em populações clínicas, o que representa um reconhecimento da importância deste comportamento na saúde.

O conceito de bem-estar está relacionado com o de qualidade de vida e reflecte a ausência de afectos negativos, a presença de afectos positivos e elevada satisfação com a vida. O efeito de “sentir-se bem” após a participação em actividades físicas, por vezes relatado pelos participantes, constitui um sintoma de bem-estar subjectivo, que pode interferir com importantes variáveis psicológicas que influenciam a maneira como o quotidiano é percepcionado e avaliado pelos indivíduos.

A prática da actividade física pode prevenir o aparecimento de estados depressivos em indivíduos saudáveis e a recaída em pacientes previamente tratados com sucesso (Martinsen, 1993).

E existem estudos que comprovem os benefícios do exercício em depressões?

São vários os estudos que o comprovam. Por exemplo, de acordo com Spirduso e Cronin (2001), os estudos sobre os efeitos do exercício na qualidade de vida dos indivíduos na terceira idade demonstraram de uma forma consistente, uma associação entre a função física em idosos e os sentimentos de bem-estar. Os indivíduos mais activos são os que reportam níveis mais elevados de bem-estar.

Duas meta-análises de estudos com indivíduos clinicamente deprimidos (Craft & Landers, 1998; Lawlor & Hopker, 2001) confirmam que a actividade física tem fortes efeitos na diminuição da depressão, com efeitos mais pronunciados nos indivíduos com depressão moderada a severa. Constataram ainda, que a utilização do exercício, como tratamento da depressão, é tão eficaz quanto outras formas, o que aponta para a utilidade da actividade física como adjunto de outras formas de terapia.

Os trabalhos de Blumenthal et al. (1998) e de Babyak, et al. (2000) constituem fortes evidências da utilidade do exercício no tratamento da depressão. Indivíduos idosos diagnosticados com depressão foram aleatoriamente distribuídos por três formas de tratamento (que incluiu treino de resistência, medicação anti-depressiva e uma combinação dos dois métodos). Após 10 meses, os sujeitos do grupo de exercício recaíram significativamente menos do que os sujeitos do outro grupo.

Dunn, Trivedi e O´Neal (2001) confirmaram segundo alguns estudos, que maiores quantidades de actividade física de lazer estão geralmente mais associadas a menores sintomas de depressão, quer seja, exercício aeróbio ou anaeróbio.

Indivíduos mais ativos são mais otimistas do que indivíduos inativos/pouco ativos (Kavussanu & McAuley, 1995). Segundo estes autores, a adesão a uma actividade física torna as pessoas mais energéticas, diminui a tendência para percepcionar as situações como ameaçadoras e promove a sensação de mestria com consequentes sentimentos de controlo o que, na globalidade, pode diminuir a apreensão e facilitar o optimismo.

Segundo Gauvin, Rejeski e Reboussin (2000) verificaram que os benefícios da actividade física não se perdem imediatamente após a sessão de treino, prolongando-se pelo resto do dia. Nos dias activos, os sujeitos sentiam-se mais revitalizados, tranquilos e envolvidos nas actividades que levavam a cabo, do que, nos dias em que não faziam actividade física. Esta situação, pode influenciar positivamente as interacções sociais, a produtividade no trabalho e o interesse por novas actividades. Quando experimentados continuamente, estes efeitos poderão ter repercussões evidentes na melhoria da qualidade de vida (Berger et al., 2002).

O facto da actividade física poder ser um factor socializante, através da possibilidade de multiplicação dos contactos sociais, do desenvolvimento de sentimentos de filiação e consequente diminuição do isolamento social, pode estar na origem dos seus efeitos benéficos nos indivíduos (Buckworth & Dishman, 2002).

A minha experiência profissional vem de encontro aos estudos anteriormente mencionados. Clientes com quadros clínicos depressivos, após algumas semanas de exercício regular, relataram sentirem-se melhores, principalmente nos dias que praticavam exercício. Porém, é preciso ter em atenção que, em casos de quadros clínicos graves, o uso de fármacos é inevitável, mas o exercício será um importante coadjuvante nesta recuperação. Será também fundamental no processo de redução de fármacos.

Este “medicamento alternativo” tem um perfil de segurança muito favorável e os seus “efeitos secundários” são muito desejáveis.

É de conhecimento geral que o exercício físico regular e moderado tem efeitos benéficos na saúde em geral. A nível psicológico, também: desde a sensação de bem-estar (através da libertação da hormona serotonina), redução dos níveis de ansiedade, aumento da autoestima e autoconfiança, melhoria da cognição, diminuição dos níveis de stress e prevenção do isolamento.

O conjunto destes estudos permite apoiar a conclusão que a prática de exercício físico está associada a valores mais baixos de depressão.


* Segundo a Direção-Geral da Saúde (2017), as depressões ou perturbações depressivas são caracterizadas por tristeza, perda de interesse ou prazer, sentimentos de culpa ou de autoestima baixa, perturbações do sono ou do apetite, sensação de cansaço e baixo nível de concentração. A depressão pode ser duradoura ou recorrente, prejudicando substancialmente a capacidade de uma pessoa funcionar no trabalho ou na escola ou lidar com a vida diária. Na sua forma mais grave, a depressão pode levar ao suicídio.


Ariana Freitas
Personal Trainer
Técnica Especialista em Exercício Físico

© 2017 clubenavaldofunchal.com

Siga-nos: